Em sistema de ateliê, ele desenvolve seus insólitos projetos, onde a cor marca uma função estrutural. "Ao contrário da forma – argumenta Fernando Peixoto, de Salvador, Bahia – a cor é economicamente neutra e, acima de tudo, democrática. Usar vermelho, verde ou amarelo não encarece o projeto, cria uma nova expressão."

Com uma produção vibrante que qualifica de "marginal e periférica", Fernando Peixoto está mudando a paginação arquitetônica de Salvador, elaborando uma média de dois projetos/mês. Quem visita a Bahia, atualmente, verificará com surpresa que seus losangos e triângulos coloridos começam a ser reproduzidos pelo cidadão comum, à semelhança do que havia ocorrido com as colunas do Alvorada.

"Se antigamente era a torre de vidro, hoje – comenta – há uma nova expectativa, porque todo mundo carrega consigo essa ansiedade de ser moderno. Quando uma obra emociona e se reflete na arquitetura espontânea, significa sem dúvida a reversão de uma imagem ou símbolo de modernidade. E isso, para mim, é mais importante que a obra em si."

Arquitetura do cotidiano
A exemplo de um Glauber Rocha, um provocador, invertendo conceitos e parâmetros consagrados. "A arquitetura, a meu ver, é resultado e não causa – proclama sem medo de pecar. O edifício, portanto, deve ser a expressão do momento, ter a cara da cidade. Não é a arquitetura monumental ou de exceção que traduz essa realidade, mas a arquitetura do cotidiano. A arquitetura tradicional já não corresponde à dinâmica e velocidade dos objetos, dos shoppings e vitrinas, de nosso dia-a-dia. Vejo pelo meu filho, com suas roupas, seu skate todo colorido e, no entanto, freqüenta uma escola de concreto aparente que não tem nada a ver com seu universo." E completa: "quem dissesse, há alguns anos, que a música dos Beatles seria socialmente mais durável que um projeto de Arquitetura, certamente seria um herege. Quem quisesse, por outro lado, fazer um inventário de nosso tempo e pegasse uma máquina de calcular, um simples liqüidificador e um projeto arquitetônico, certamente não poderia imaginar que fossem objetos da mesma época."

A arquitetura, enfim – propõe Fernando Peixoto, pois "funcionalmente é muito passageira." O arquiteto, segundo ele, trabalha com materiais relativamente resistentes e pensa que seu projeto vai durar toda a vida. "Vale o momento. A permanência está naquilo que consegue refletir o momento em que o edifício foi construído. O valor de um prédio antigo está no sentido de ser um marco arqueológico de uma época. A minha fonte de inspiração, portanto, encontra-se em volta de mim: na camisa de meu filho, na roupa nova de minha mulher, num carro ou ventilador. Adora folhear revistas de arte gráfica, de design, são coisas que alimentam minha criatividade mais que qualquer revista ou livro de Arquitetura. A revista é algo contemplativa. A própria cor é um elemento economicamente neutro, mais democrático. A cor é intuitiva, a forma, cultural. Usar vermelho ou verde não encarece o projeto, mas empregar a forma redonda ou quadrada já altera substancialmente o orçamento."
Classificados por alguns críticos como projetos de designer ououtdoor e, até mesmo, como arquitetura de fachadas, seus edifícios pegam de surpresa qualquer observador acidental. Como “jogos de ilusão ótica”, à distância sugerem imensos painéis geométricos que vistos de perto se transformam: o que parecia côncavo pode ser convexo, o escuro, claro, e a cor, talvez, apenas uma solução estrutural.

"A arquitetura – argumenta Fernando – não é tátil, não se pega, e sim algo para ser visto pelo transeunte. Só o usuário pode senti-la, mas o transeunte anônimo também tem direito a ela. A fachada, assim, constitui mais uma expressão social, comunitária, que o próprio interior do edifício. Em síntese, você tem um compromisso com o morador e com o transeunte também." Orgulhoso, evoca o exemplo de um cidadão que, ao comentar um de seus projetos, reagiu: "Veja, parece camisa do Flamengo!"

O racional e o prazer

Antigo seminarista do Colégio dos Irmãos Maristas, ex-aluno do ITA, Fernando Peixoto se formou arquiteto em 1969. A princípio, dividiu o espaço de seu escritório-ateliê com um amigo, mas – a certa altura – sentiu que precisava mudar a rota profissional. Para ele, enfim, a linguagem do concreto havia se esgotado e pretendia caminhar em direção a uma linguagem na linha de produção industrial, racionalizando custos sem abrir mão da qualidade construtiva.

"Chegou uma hora – confessa – que necessitava mudar. Ou me tornava amigo do rei, me engajando nos projetos públicos, ou emigrava para outro lugar, onde pudesse desenvolver um projeto de vanguarda. Decidi por outra saída: ficar aqui mesmo, onde ainda existe uma grande tolerância profissional e desenvolver minha própria expressão arquitetônica," que considera mais um sistema que uma linguagem ou estilo.

Assim, se diz dividido. De um lado, o racional, de outro, o espontâneo, a fantasia e o prazer de criar. E, instigante, argumenta: "ainda existe no Brasil uma confusão entre vanguarda e modernidade. Vanguarda, no meu entender, é fronteira e modernidade, acesso. Se a vanguarda não se tornar modernidade não passa de um preciosismo. Uma Ferrari GT é vanguarda, um Fiat, modernidade. Um Rolex é vanguarda, enquanto o Seiko, modernidade. O que desejava, portanto, era fazer uma arquitetura moderna, de acesso, daí minha atenção voltada para o cotidiano. O indivíduo que foi obrigado a se mudar para um conjunto popular não significa que culturalmente se tornou mais pobre, pois continua com o mesmo desejo de modernidade. Assim, procuro fazer projetos classe A ou para a classe média com a mesma paixão e qualidade. O profissional de Arquitetura deve trabalhar a sensibilidade para responder, cada vez mais, a uma faixa maior. Meu grande desafio seria projetar um conjunto habitacional com competência, aí sim poderia me orgulhar do que faço."

Contrabalanceando o útil e o agradável, o arquiteto não abre mão de qualquer procedimento racional. "Racionalizar desde uma quebra de bloco significa todo um processo cultural, começa desde a fabricação até a hora em que se assenta, é um processo de educação que precisamos conquistar. Racionalizar, por outro lado, o projeto. Não conheço nenhuma construtora no Brasil que aproprie, por exemplo, as fachadas, quebrando as arestas. O nosso método de avaliação contínua precário. Mesmo as construtoras de vanguarda, que tentam racionalizar o processo construtivo, não conseguiram isso. Ainda, no Brasil, se coloca toda uma parafernália tecnológica para se fabricar um Rolls-Royce, persistindo a mentalidade de que é preciso entortar um prego pra ficar diferente. O meu lado, então, é o da modernidade no sentido de acesso, fazendo, por exemplo, sanitários conjugados para diminuir as prumadas. Afinal, o conforto em Arquitetura está relacionado ao custo, não existe Arquitetura abstrata. Ou seja, a cama precisa ser bonita e confortável também."

Define-se como um "arquiteto na contramão, à margem." E, incisivo, conclui: "o que predomina ainda é a prepotência, como expressão do poder. A elite consagra valores. O diferencial, no entanto, não pode ser por dinheiro, mas por criatividade e qualidade. Eu me orgulho, portanto, que minha notoriedade venha de projetos absolutamente corriqueiros e não excepcionais. Olodum, João Gilberto e outros também já foram periféricos, como eu."

 


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