Todas as cores baianas

Nos últimos anos, Salvador vem se transformando urbanisticamente em ritmo acelerado e de modo radical. Como uma das presenças marcantes desse processo, a arquitetura de Fernando Peixoto incorpora à paisagem da capital baiana novas referências visuais, supergraphics que extrapolaram o campo da polêmica.

A obra do arquiteto baiano Fernando Peixoto paira sobre o complexo território dos extremos: de um lado, um contingente de arquitetos e críticos reticentes ou indiferentes diante de sua produção; de outro, a população, os turistas, e também outros arquitetos, admiradores dos edifícios-totens plantados na paisagem de Salvador.

Sua fama, no entanto, já ultrapassou os limites da Bahia e do Brasil. Ao lado de Ruy Ohtake, ele representou o país na 5ª Mostra Internacional de Arquitetura da Bienal de Veneza de 1991, em participação organizada pelo Ministério das Relações Exteriores. O responsável pela parte brasileira. Aparício Basílio da Silva, caracterizava Peixoto como o arquiteto da reta e da cor, destacando sua origem, “vindo ele da cidade de Salvador, a mais tropical e exuberante do país, onde a cultura africana é mais evidenciada, tanto em cores, símbolos, religião, arte, até na arte culinária.”

Festa para os olhos

O impacto visual dos prédios é a essência do trabalho de Peixoto, nascido em 1946 e formado na Universidade Federal da Bahia. Um ovo de Colombo que tem antecedentes nos anos 60, quando empenas cegas eram camufladas na paisagem urbana com murais concebidos por artistas, muitos na linha op art. Um dos registros marcantes do reconhecimento dessa atitude gráfica foi a capa das primeiras edições do texto-base de Charles Jencks. A Linguagem da Arquitetura Pós-Moderna, reproduzindo a imagem de um prédio comercial japonês com supergraphics, de Minoru Takeyama.

A produção do arquiteto baiano anterior à fase atual cingia-se ao comportado repertório modernista. Abrindo seu escritório individual, a partir de 1984, com o conjunto de edifícios no bairro de Cidadella (ver Projeto 114), sua obra emerge da arquitetura lugar-comum das novas áreas de ocupação da cidade – os fundos de vale e escarpas –, tornando-as um lugar-atração. O traçado urbanístico de Cidadella (também de Peixoto) não é provocativo como a concentração de prédio de cinco a 15 andares que, com seus grafismos de fachada, podem fazer o motorista da pista expressa contígua desviar a atenção para tão inusitado conglomerado visual.

Forma e tectônica

Peixoto transita numa fatia convencional do mercado imobiliário, pouco afeito a inovações, projetando edifícios comerciais e residenciais como tantos outros profissionais em todo o país – quase exceções num conjunto quase esmagador de construções medíocres e anônimas, em empreendimentos cuja prioridade de redução de custos acaba gerando também economia de boa arquitetura. Nesse contexto, o arquiteto baiano é um inegável destaque. Ao atender esse mercado com um produto diferenciado, oferece uma “arquitetura inesperada,” como ele mesmo propõe. Surpresa que não se apresenta por suas características construtivas ou volumétricas: nada de formas recortadas, balcões salientes, balanços. Seus edifícios têm plantas com perímetros regulares, volumetrias prismáticas previsíveis, sóbrias estruturas moduladas de viga/pilar racionalizadas ao máximo, evitando soluções encarecedoras. Uma negação explícita da estética da “estrutura como arquitetura”. Uma crítica técnica contesta a solução das plantas, o tratamento das aberturas compromissadas com o grafismo das fachadas em detrimento da habitabilidade (problema mais vem equacionado em suas obras recentes). Mas é difícil permanecer impassível diante de uma de suas torres na paisagem da cidade.

Os supergraphics de Peixoto caracterizam sua obra, mas deixaram de ser uma marca exclusiva. O grafismo colorido de fachada é uma fórmula como outra qualquer, passível de admiração em seu momento inaugural e naturalmente desgastável com a repetição indiscriminada – tal como, num passado recente, o concreto à vista, que ditava a regra em moda. Na Bahia e em várias partes do Brasil surgem seguidores e imitadores, nem sempre com a mesma qualidade do original, mas, sem dúvida, reverberando o sucesso da visualidade monumental introduzida pelo arquiteto baiano.
 


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asdasd
12/14/2012 7:49am

adasdadadasda

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adasd
12/14/2012 7:49am

dadadadasdasd

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