O Movimento Moderno, há meio século, colocou algumas questões fundamentais que àquela altura revigoraram o meio arquitetônico, marcando o espaço cotidiano até hoje. Entre elas, a questão mais interessante, demonstrativa de uma mudança de objetivos e preocupações, era a da habitação. A habitação para todos, a vida coletiva nela implícita, a liberação de espaço conquistada pela edificação em altura geraram as bases teóricas e arquetípicas que se constituíram em um modelo, estabelecendo uma tipologia que se espraiou, atingindo o canteiro de obras, a legislação e a indústria da construção civil.
Hoje, repete-se a habitação tradicional, mais ou menos adaptada às últimas normas sócio-econômicas, amesquinhando o modelo modernista. Em contrapartida, seja na área da biogenética, no aumento dos divórcios, no processo de terceirização acelerada, ou no surgimento do videotexto, das fibras ópticas, da robótica, o campo de transformações sociais é imenso. As noções de tempo, limite e proximidade vêm se transformando rapidamente, obrigando-nos a repensar a urbanidade que alcança todos os setores de atividade, representando, talvez, o fim da dicotomia campo/cidade. Já o computador associado à imagem se coloca como uma “antecâmara para o mundo,” dando novo sentido às relações público/privado.

Era de se esperar que o edifício de alto padrão refletisse essas mudanças. Afinal, esse é um espaço livre de parâmetros constrangedores: dinheiro não é problema, a falta de informações também não, a tecnologia pode quase tudo e está a seu alcance. Mas assistimos nestes últimos tempos às transformações dos espaços para indústria e escritório, que, em sua busca de flexibilidade e absorção de novas tecnologias, vêm se alterando em consonância com as mudanças do próprio trabalho, acentuando mais e mais a estagnação da habitação.

A personalização de um apartamento parece uma proposta condizente com o mundo atual, onde é patente a crescente individualização e busca de identidade. Mas a personalização só faz sentido se for capaz de refletir o modo de vida específico de uma personalidade específica. Portanto, deveria gerar espaços definidos por qualidades particulares: a alcova para quem gosta do escuro e não é claustrófobo; a possibilidade de dormir sob as estrelas como um duplex permitiria, um espaço tépido, para quem gosta de sombra e água fresca.

Essa proposta deixa de ser razoável se parte de uma personalização estereotipada, cujas respostas são soluções impróprias, pouco pertinentes – personalizações do detalhe, do tratamento do espaço um banheiro acarpetado, um torno de microondas programável para quem tem empregada e mordomo, uma sala dita íntima que só é passagem para os quartos. E a concepção do espaço? É válida para todos, bastando para isso apenas acabamentos diferenciados?

E tudo isso gera reflexos inescapáveis: o edifício é forçosamente concebido como casca, exatamente como nos prédios de escritórios, mas, mais exigente, faz questão da hidráulica também flexível para que as áreas molhadas não sejam fixadas. A construção do edifício volta a um processo artesanal obrigando a um gerenciamento de projetos e a uma racionalização da obra precisos, sob pena de inviabilizá-la.

Enfim, fica ainda a pergunta de que habitação o mundo contemporâneo necessita? Porque o mundo, este mudou.

Brandão De Oliveira
 
 
Todas as cores baianas

Nos últimos anos, Salvador vem se transformando urbanisticamente em ritmo acelerado e de modo radical. Como uma das presenças marcantes desse processo, a arquitetura de Fernando Peixoto incorpora à paisagem da capital baiana novas referências visuais, supergraphics que extrapolaram o campo da polêmica.

A obra do arquiteto baiano Fernando Peixoto paira sobre o complexo território dos extremos: de um lado, um contingente de arquitetos e críticos reticentes ou indiferentes diante de sua produção; de outro, a população, os turistas, e também outros arquitetos, admiradores dos edifícios-totens plantados na paisagem de Salvador.

Sua fama, no entanto, já ultrapassou os limites da Bahia e do Brasil. Ao lado de Ruy Ohtake, ele representou o país na 5ª Mostra Internacional de Arquitetura da Bienal de Veneza de 1991, em participação organizada pelo Ministério das Relações Exteriores. O responsável pela parte brasileira. Aparício Basílio da Silva, caracterizava Peixoto como o arquiteto da reta e da cor, destacando sua origem, “vindo ele da cidade de Salvador, a mais tropical e exuberante do país, onde a cultura africana é mais evidenciada, tanto em cores, símbolos, religião, arte, até na arte culinária.”

Festa para os olhos

O impacto visual dos prédios é a essência do trabalho de Peixoto, nascido em 1946 e formado na Universidade Federal da Bahia. Um ovo de Colombo que tem antecedentes nos anos 60, quando empenas cegas eram camufladas na paisagem urbana com murais concebidos por artistas, muitos na linha op art. Um dos registros marcantes do reconhecimento dessa atitude gráfica foi a capa das primeiras edições do texto-base de Charles Jencks. A Linguagem da Arquitetura Pós-Moderna, reproduzindo a imagem de um prédio comercial japonês com supergraphics, de Minoru Takeyama.

A produção do arquiteto baiano anterior à fase atual cingia-se ao comportado repertório modernista. Abrindo seu escritório individual, a partir de 1984, com o conjunto de edifícios no bairro de Cidadella (ver Projeto 114), sua obra emerge da arquitetura lugar-comum das novas áreas de ocupação da cidade – os fundos de vale e escarpas –, tornando-as um lugar-atração. O traçado urbanístico de Cidadella (também de Peixoto) não é provocativo como a concentração de prédio de cinco a 15 andares que, com seus grafismos de fachada, podem fazer o motorista da pista expressa contígua desviar a atenção para tão inusitado conglomerado visual.

Forma e tectônica

Peixoto transita numa fatia convencional do mercado imobiliário, pouco afeito a inovações, projetando edifícios comerciais e residenciais como tantos outros profissionais em todo o país – quase exceções num conjunto quase esmagador de construções medíocres e anônimas, em empreendimentos cuja prioridade de redução de custos acaba gerando também economia de boa arquitetura. Nesse contexto, o arquiteto baiano é um inegável destaque. Ao atender esse mercado com um produto diferenciado, oferece uma “arquitetura inesperada,” como ele mesmo propõe. Surpresa que não se apresenta por suas características construtivas ou volumétricas: nada de formas recortadas, balcões salientes, balanços. Seus edifícios têm plantas com perímetros regulares, volumetrias prismáticas previsíveis, sóbrias estruturas moduladas de viga/pilar racionalizadas ao máximo, evitando soluções encarecedoras. Uma negação explícita da estética da “estrutura como arquitetura”. Uma crítica técnica contesta a solução das plantas, o tratamento das aberturas compromissadas com o grafismo das fachadas em detrimento da habitabilidade (problema mais vem equacionado em suas obras recentes). Mas é difícil permanecer impassível diante de uma de suas torres na paisagem da cidade.

Os supergraphics de Peixoto caracterizam sua obra, mas deixaram de ser uma marca exclusiva. O grafismo colorido de fachada é uma fórmula como outra qualquer, passível de admiração em seu momento inaugural e naturalmente desgastável com a repetição indiscriminada – tal como, num passado recente, o concreto à vista, que ditava a regra em moda. Na Bahia e em várias partes do Brasil surgem seguidores e imitadores, nem sempre com a mesma qualidade do original, mas, sem dúvida, reverberando o sucesso da visualidade monumental introduzida pelo arquiteto baiano.
 
 
A profecia de Adolf Loos se cumpre: "Por culpa do arquiteto, a arte de construir vem se degradando e se convertendo em uma arte gráfica". Essa desmaterialização vem crescendo ainda mais com as novas técnicas de representação e simulação baseadas em imagens virtuais. Perde-se enquanto cidade de relações humanas, ganha-se enquanto sistemas de redes materiais e imateriais do ambiente urbano.

Em Salvador, Fernando Peixoto foi quem melhor soube aproveitar essa tendência da arquitetura contemporânea, assumindo seu caráter gráfico e atuando no meio urbano como uma realidade em que desapareceu a preocupação com o lugar. Cidade que se faz de monumentos fechados em si mesmos que tentam firmar uma identidade própria e individual. É nesse contexto que seu trabalho adquire status de arquitetura do espetáculo.

Quando atua como designer do mercado imobiliário, sua produção é personalizada, tendo como base um usuário genérico. Ele estabelece uma identidade arquitetônica própria frente à neutralidade do espaço urbano. Dissocia a fachada de um edifício de apartamentos ou prédio de escritórios de seus compromissos com a abertura dos muros. Transforma a caixa exterior em pura expressão plástica, marcada por faixas e cores em escala urbana, criando sensações visuais de dobras e sombras, onde a princípio existem somente planos simples e lisos, usando a arquitetura como um recheio.

O êxito dessa arquitetura está na superfície que limita o interior e o exterior. Internamente, o arquiteto organiza plantas que atendem aos anseios do mercado; externamente, dissimula o conteúdo sob um efeito gráfico, uma roupagem que garante o sucesso do empreendimento, mesmo comprometendo a iluminação natural dos interiores, dificultando o agenciamento dos espaços, escravizando os ambientes. Um sistema gráfico que vem evoluindo nas sucessivas e superpostas experiências construídas. O próprio arquiteto não sabe onde chegará, mas já percebe o “barroquismo” do Centro Empresarial Previnor.
Quando atua como “amigo do rei”, como afirma o próprio Peixoto, no caso da residência Félix de Almeida, a simulação de cubos urbanos se transforma em espaço de fato. Aqui existe um cliente real, com manias, desejos e sonhos, para o qual o arquiteto projeta. Nesses projetos, já não são necessários os vários tons de cinza e cores vibrantes para criar grafismos e efeitos visuais; ao contrário, exploram-se as sombras naturais de volumes sobre o plano das fachadas.

Mas seu interesse é polemizar. Nesse sentido, o projeto da marina é um prato cheio a suscitar polêmica dentro dos órgãos que legislam sobre o espaço urbano de Salvador. Trata-se de uma intervenção urbana em zona histórica, cuja delicada situação determinou amplo estudo de visuais do entorno. Para o arquiteto, uma proposta capaz de dinamizar o decadente bairro do Comércio graças à grandiosidade da intervenção, com volumes identificáveis, à Fernando Peixoto. Um novo pedaço urbano que se acoplaria à encosta da cidade, onde a arquitetura seria uma conseqüência.

Críticos, acadêmicos e arquitetos baianos se surpreendem com a superficialidade dessa arquitetura, por não conseguirem ser inovadores dentro do vazio experimentado pela falta de uma modernidade plena. Uma arquitetura que se concretiza no efêmero, constantemente negada pela vanguarda, reafirmando-se como ícone dessa nova cidade gerada segundo leis de mercado.

Impermanência de memória

Na relação proposta memória/inconsciência X esquecimento/consciência, se encontra, talvez, um dos elementos urbanos que diferencia  a personalidade brasileira de suas cidades das demais. A mobilidade, que muitas vezes é confundida com desordem. Uma característica que marca não somente o modo de ser urbano em Salvador, como também a impermanência de uma cultura da memória.

"A imobilidade, que permite o conhecimento, esquece a vida", ao passo que a mobilidade a reafirma. Uma cidade nova, uma cidade viva tende a ser uma cidade sem memória, ou seja, uma cidade que não se reafirma na estagnação de seus elementos, isso considerando a visão moderna de manter o esforço de recuperação da experiência do passado. Sua história é curta, sua busca é longa. Em contraposição, temos as cidades ricas de memória. Memórias tão fortes em suas histórias que as imobilizam. Assim ocorreu com a inesquecível cidade de Zora, que, por permanecer imóvel, se esvaiu.

A rigidez de perdurar na consciência faz com que sua existência se dissolva dentro de sua própria contradição, passando a ser à de um elemento morto. A cidade passa a reafirmar-se pelo culto ao passado, recriado na direção de tradições futuras. Saudade de futuro.

A nova ordem mundialA mobilidade das cidades brasileiras, caso específico de Salvador, faz com que a cidade mantenha-se viva e mutável. “Aqui tudo parece que é construção e já é ruína... Nada continua”. Um movimento que deixa de fora a cultura oficial e se reafirma nas periferias vivas, mutáveis. “Algo está fora da ordem, fora da nova ordem mundial”.

Salvador, uma das mais modernas cidades brasileiras, na opinião do geógrafo Milton Santos, ao considerar o fato de a cidade haver dado as costas para a cidade existente, reerguendo-se em um novo centro de negócios e serviços, independentemente do primeiro. Este novo espaço-cidade sem passado, seja por decisões políticas ou por necessidades físicas (não é o que importa), continua latente em sua maneira de existir. O tempo não se perde, mas também não se acumula. O que se tem é vida em seu instante.

A mesmo tempo que a cidade perde sua memória a cada dia, constitui uma vida nova a cada momento. Vive da produção de novas idéias que se somam no dia a dia do esquecimento. Recria-se sem a intenção de perdurar. Sustenta-se no novo e casual que muda a todo instante. Uma cidade rica em culturas emergentes e passageiras. Aqui, o folclore não se apoia na canonização de um rito; ao contrário, ele se revitaliza em suas adaptações no tempo, agregando novos elementos a cada instante, uma cultura forte, uma cultura insustentável, superficial. A memória estática não interessa. A memória que fica é transformada pela consciência, e o esquecimento a absorve. A identidade se reinventa todo dia. Falo que o academicismo de Edmilson Carvalho, ao analisar Hildegardes Vianna, não chega a compreender.

Memórias inconscientesA cidade se movimenta. Ela se desestrutura enquanto centro, deslizando pelas cumeadas: Terreiro, Pelourinho, Rua Chile, Politeama, Lapa... Iguatemi, sem uma preocupação com o que ficou construído no tempo. Momentos de prestígio distintos que deixam suas marcas construídas. Um espaço a ser reinventado por quem o reabilite. Espaços urbanos que, passados seus momentos áureos, são esquecidos enquanto ambientes a serem vividos por quem os concebeu e passam a fazer parte dessas inconscientes memórias. Na mobilidade urbana, falar de patrimônio é falar de uma tentativa institucional, pois nesta ambiência viva de produção cultural não resta espaço para que se cultue o passado ou, melhor dito, não se faz necessária a manutenção de uma memória dentro da emergência desse tipo de produção cultural.

Esta análise se reenfatiza quando se observa o estado dos arquivos públicos. Em um artigo do jornal A TARDE, “Salvador, uma cidade sem memória”, evidencia-se o desleixo que esses documentos sofrem no decorrer de sua existência. Um material quase em sua totalidade perdido nos sucessivos incêndios que sofreram os arquivos públicos da cidade. Os que resistiram estão guardados nos úmidos sótãos de antigas construções. Para a cultura preservacionista ocidental, é difícil compreender tais arbitrariedades com a vasta memória escrita. Entretanto, não existe uma intenção própria na cultura voltada para o preservar. Essa história passa a ser assunto para museu.

Enquanto se observa a proliferação de museus na Europa e EUA, uma cultura que se remonta a uma sólida cultura de passado, sendo considerada como a tipologia arquitetônica do fim de século (muito divulgada pelas revistas especializadas internacionais), no Brasil, particularmente na Bahia, passar a ser tema de museu é deixar de ser uma referência, enquanto vida, para pertencer ao cemitério dos assuntos de curiosidade do passado.

Trabalhando no vazioPostura coerente com um país que mergulhou de cara em seu inovador, em seu moderno, negando radicalmente a história. Preservar, no Brasil, é trabalhar no vazio. Faz parte de uma ilha institucional, uma busca arqueológica, que pretende sustentar uma história, ser pró-memória. A instituída restauração conforma o cenário simbólico a ser mantido como memória pela ordem dominante.

Desse modo, os museus não se sustentam pelo cidadão que compreende sua história, mas sim por um público que, por curiosidade, admira o passado. Os museus não são elementos de referência para a inovação da cultura existente, e sim respaldo institucional da memória oficial.

A força cultural baiana não surge do academicismo de sua intelectualidade, mas sim de sua periferia borbulhante. Uma cidade cheia de artistas, como disse Gerônimo. Artistas que não sabem conceituar sua arte ou não querem fazê-lo. Artistas que produzem arte sem o compromisso de perpetuá-la. Uma cidade tão pobre de críticos...

Críticos, acadêmicos, arquitetos que se surpreendem com a superficialidade da recente arquitetura baiana, por não conseguirem ser irresponsáveis e inovadores dentro do vazio experimentado pela falta de vivência de uma modernidade plena. Uma arquitetura que se concretiza no efêmero proposto por Fernando Peixoto, que, constantemente, é negada pela vanguarda e reafirmada como ícone desta nova cidade, possibilitada dentro das leis de mercado.

Esse movimento cultural, que tem hoje como expressão máxima a música, se sustenta na continuidade da mudança, onde tudo se experimenta e nada se consolida como verdade única, mantendo todas as origens e referências à sua disposição. A música é um espaço tecnicamente sofisticado, onde a mobilidade é permissível. A personalidade baiana exige uma dinâmica, que se encontra na música. Ou, quem sabe, talvez esteja na própria personalidade baiana a musicalidade. De qualquer sorte, uma cultura viva, mística, que emociona.

Fernando Peixoto, um sucesso gráfico

Convidado pelo Itamaraty para ser um dos dois representantes do Brasil na V Bienal de Arquitectura em Veneza, o arquitecto personalizada e própria. Um arquitecto que quer ser reconhecido como designer antes de tudo. Sua arquitetura, um espetáculo. Um trabalho muito criticado no início, mas hoje já se assume o poder que tiveram suas intervenções na cidade: plasticidade, grafismos e cores. A griffe Fernando Peixoto toma valor de destaque e seu nome passa a figurar como elemento de prestígio na hora da comercialização da construção, prática anteriormente nunca utilizada. O que esta arquitectura significa para ser capaz de suscitar tanta polêmica?

Salvador no contexto BrasilFundada para ser a capital da colônia Brasil, Salvador teve seu momento áureo no século XVIII, hoje com um centro antigo reconhecido pela UNESCO como patrimônio mundial do seu vasto centro barroco. Nos finais do século passado início deste, uma cidade de baixo crescimento frente às demais cidades brasileiras. Sofre o seu boom como cidade que dinamiza sua economia nos anos 60/70. Abre-se a novas áreas. Cresce, transforma-se.

Esta transformação seguirá a tendência da arquitectura brasileira, uma arquitectura que se fez moderna, a-história, universal. Fundamentos de uma arquitectura solidificada na forte corrente do positivismo, do progresso. É o edifício o grande contorno. Todo edifício passa a ter o potencial para ser um monumento. Perda da hierarquização da arquitetura dentro da cidade. Surge como proposta de um novo espaço para a cidade, a cidade do movimento, a cidade do circular. Para uns chamado de espaço residual por não formar o sentido de Lugar, para outros, espaço amorfo de um todo monumental dentro da democratização do construir. Para Sennett, uma conseqüência da linguagem que se aplica ao entorno, o desejo de ver o exterior como nulidade, algo carente de valor.

A arquitetura brasileira se afirmou na absorção e radicalização destas idéias. Somos a-históricos e criativos. Não só os nossos japoneses são geniais. Existe o compromisso brasileiro de assim sê-lo. Se fez realidade segundo os cânones de uma arquitectura que se dizia funcional e universal. Construiu-se uma utopia, pagou-se caro por ela, temo-la. Seu nome: Brasília. Um orgulho que transcende das críticas de sua própria existência, sustentando o selo: uma obra de arte moderna.

Só que o monumento não se faz por si só. O monumento é fruto do contexto urbano que o reafirma. Uma vez que se descontextualizam as referências, se homogeneiza o espaço. Espaço neutro que só é capaz de ser potencializado pelo consumo, ora na postura dos centros comerciais, ora como espaços limitados à experiência do turismo organizado como tal. Trivialização e redução da cidade como mero cenário suave para o cotidiano dentro do medo à exposição. Em Salvador, foi Fernando Peixoto quem melhor soube preencher esta nova necessidade do homem contemporâneo. Um dos motivos de seu êxito.

Arquitectura como suporteSalvador se faz sob estas influências. Inserido nessa realidade, Fernando Peixoto atua nesse contexto urbano, fazendo a releitura das vertentes arquitetônicas em voga. Uma realidade onde já desapareceu a preocupação pela qualidade do Lugar urbano, definindo-se, enquanto cidade, como espaços residuais de muitos marcos de referências, apenas arquitetônicos. Cidade que em seus crescimentos se faz de monumentos que tentam adquirir uma identidade própria fechados em si mesmos.

Querer dar uma personalidade a sua arquitectura, enquanto arquitecto, é o que leva Fernando Peixoto a ser um acontecimento dentro da imagem urbana. Uma personalidade de identificação. Sua proposta se otimiza frente às demais, que também buscam esta identidade, quando descobre a possibilidade de dissociar a fachada de um edifício de apartamentos ou salas de escritório de seus compromissos com as aberturas do muro. Transforma esta caixa exterior em uma pura expressão gráfica, de tamanho sublime, usando a arquitectura como um recheio, seu suporte.

Trabalha a fachada como expressão geométrica de faixas e cores em uma escala urbana. Não é a planta o que importa, pois esta seguirá sua função, entretanto será determinada pelo grafismo pretendido na fachada, elemento definidor do projeto. A forma externa é o objetivo primeiro da proposta, o sentido da construção.

Prejudicada a iluminação, dificultado o agenciamento, escravizando o espaço interno, mas cumprindo com sua proposta, Fernando Peixoto dá uma identidade arquitetônica própria dentro da neutralidade do espaço cidade. Pois foi concebida para preencher esta carência de referência urbana, personalizando uma arquitetura com poder de marca: Fernando Peixoto.
Uma população que anseia ser moderna e fazer arte do novo mundo, tentando alcançar a todo o custo o progresso, é quem consome esta arquitectura. Somos todos. Propõe-se o novo, enquanto diferente, a quem deseja ser atual. Não pretende alterar as relações com o espaço urbano de ruptura da neutralidade enquanto residual. Apenas produz uma arquitetura para ser consumida canalizando as carências desta cidade na produção de uma arquitetura própria, emblemática.

Peixoto trabalha suas fachadas como enormes telas de um volume único, de conteúdo conhecido. Geometrização de grandes fachadas planas potencializando os elementos de revestimentos. Fachadas  escultóricas que sempre se abrem a grandes perspectivas urbanas, enfatizando sua função de marco. As aberturas, “mal necessário” da arquitectura, são absorvidas e dissimuladas enquanto vazios.

O novo que hoje é consumível. Uma nova estética de identificação, um fácil consumidor. O novo que vira moda. Um apartamento como todos os outros, uma fachada que não existe igual. A produção das aparências. Na época da aeróbica, do malhado, da cirurgia estética, dos chips e softs, das telecomunicações, das economias desnacionalizadas, do light, do clean. Época do burguês que consume qualidade, o burguês ilustrado.

Assim o êxito da arquitectura de Fernando Peixoto está no muro, a casca, no invólucro que veste seus edifícios, nesta parede que é o limite entre interior e exterior, não em seu conteúdo. Interiormente, a maneira moderna clássica de ver os espaços; externamente uma dissimulação do conteúdo em função de um efeito gráfico. Uma roupagem cujo acesso está vinculado a sua exclusividade.

Que ocorrerá em Salvador com a proliferação dos Peixotos e Peixotismos? Será o poder de saturação desta novidade?
 
 
Mais antiga capital do país, Salvador cresce preservando sua beleza arquitetônica do período colonial e despontando no cenário nacional com obras contemporâneas, como as de um dos nomes mais expressivos da arquitetura na atualidade: Fernando Peixoto. Formado pela Escola de Arquitetura da Universidade Federal da Bahia, em 1969, Peixoto tem acima de dois milhões de metros quadrados de projetos de casas, edifícios residenciais e comerciais executados em oito estados do país e Europa. Reconhecido internacionalmente, realiza palestras em diversos estados brasileiros e em eventos no exterior e possui trabalhos em revistas especializadas do Brasil, Japão, Alemanha, Itália, Espanha, Portugal e outros.

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As obras de Peixoto vêm transformando a paisagem da capital e hoje são símbolos de modernidade e cartões-postais da cidade. São caracterizadas pelas cores fortes e linhas diagonais, formando desenhos geométricos e o principal diferencial do seu trabalho está exatamente na aproximação que busca manter com as artes gráficas. É mestre em tirar proveito dos truques óticos, que fazem com que seus prédios pareçam não possui janelas. Ele próprio se identifica como um designer, na medida que o seu desejo é explorar e manifestar o sentido de percepção e velocidade do mundo atual.
Mas a sua intenção é promover uma imagem de modernidade que não seja importada. Em sua concepção, um prédio contemporâneo não pode deixar de ter todos os aparatos eletrônicos, mas tem que possuir referências da cultura local. “Um prédio é uma máquina de morar ou trabalhar, mas é necessário colocar significados que simbolizem as pessoas. Sempre procuro olhar em volta”, justifica.
Para explicar suas idéias, Peixoto cita o exemplo da criança que usa roupas e tênis de bolinhas e listras coloridas e estuda em uma escola branca e cinza. Segundo ele, há algo de errado com a construção, já que a escola é que foi feita para a criança freqüentar e não o contrário. “Quem fez a escola não observou o menino, achou que ele fosse de menor importância. Não entendo porque alguns profissionais não observam essas coisas”, comenta.
Mas é preciso deixar claro, também, que o trabalho de Peixoto não é folclórico. Como ele mesmo faz questão de ressaltar, não é preciso fazer um forno a lenha para dizer que é regional. “Busco uma alternativa de modernidade como a Bossa Nova fez. Ela deu uma nova forma ao samba tradicional. Quero que meu trabalho seja a Bossa Nova da arquitetura”, conclui.

 
 
Em sistema de ateliê, ele desenvolve seus insólitos projetos, onde a cor marca uma função estrutural. "Ao contrário da forma – argumenta Fernando Peixoto, de Salvador, Bahia – a cor é economicamente neutra e, acima de tudo, democrática. Usar vermelho, verde ou amarelo não encarece o projeto, cria uma nova expressão."

Com uma produção vibrante que qualifica de "marginal e periférica", Fernando Peixoto está mudando a paginação arquitetônica de Salvador, elaborando uma média de dois projetos/mês. Quem visita a Bahia, atualmente, verificará com surpresa que seus losangos e triângulos coloridos começam a ser reproduzidos pelo cidadão comum, à semelhança do que havia ocorrido com as colunas do Alvorada.

"Se antigamente era a torre de vidro, hoje – comenta – há uma nova expectativa, porque todo mundo carrega consigo essa ansiedade de ser moderno. Quando uma obra emociona e se reflete na arquitetura espontânea, significa sem dúvida a reversão de uma imagem ou símbolo de modernidade. E isso, para mim, é mais importante que a obra em si."

Arquitetura do cotidiano
A exemplo de um Glauber Rocha, um provocador, invertendo conceitos e parâmetros consagrados. "A arquitetura, a meu ver, é resultado e não causa – proclama sem medo de pecar. O edifício, portanto, deve ser a expressão do momento, ter a cara da cidade. Não é a arquitetura monumental ou de exceção que traduz essa realidade, mas a arquitetura do cotidiano. A arquitetura tradicional já não corresponde à dinâmica e velocidade dos objetos, dos shoppings e vitrinas, de nosso dia-a-dia. Vejo pelo meu filho, com suas roupas, seu skate todo colorido e, no entanto, freqüenta uma escola de concreto aparente que não tem nada a ver com seu universo." E completa: "quem dissesse, há alguns anos, que a música dos Beatles seria socialmente mais durável que um projeto de Arquitetura, certamente seria um herege. Quem quisesse, por outro lado, fazer um inventário de nosso tempo e pegasse uma máquina de calcular, um simples liqüidificador e um projeto arquitetônico, certamente não poderia imaginar que fossem objetos da mesma época."

A arquitetura, enfim – propõe Fernando Peixoto, pois "funcionalmente é muito passageira." O arquiteto, segundo ele, trabalha com materiais relativamente resistentes e pensa que seu projeto vai durar toda a vida. "Vale o momento. A permanência está naquilo que consegue refletir o momento em que o edifício foi construído. O valor de um prédio antigo está no sentido de ser um marco arqueológico de uma época. A minha fonte de inspiração, portanto, encontra-se em volta de mim: na camisa de meu filho, na roupa nova de minha mulher, num carro ou ventilador. Adora folhear revistas de arte gráfica, de design, são coisas que alimentam minha criatividade mais que qualquer revista ou livro de Arquitetura. A revista é algo contemplativa. A própria cor é um elemento economicamente neutro, mais democrático. A cor é intuitiva, a forma, cultural. Usar vermelho ou verde não encarece o projeto, mas empregar a forma redonda ou quadrada já altera substancialmente o orçamento."
Classificados por alguns críticos como projetos de designer ououtdoor e, até mesmo, como arquitetura de fachadas, seus edifícios pegam de surpresa qualquer observador acidental. Como “jogos de ilusão ótica”, à distância sugerem imensos painéis geométricos que vistos de perto se transformam: o que parecia côncavo pode ser convexo, o escuro, claro, e a cor, talvez, apenas uma solução estrutural.

"A arquitetura – argumenta Fernando – não é tátil, não se pega, e sim algo para ser visto pelo transeunte. Só o usuário pode senti-la, mas o transeunte anônimo também tem direito a ela. A fachada, assim, constitui mais uma expressão social, comunitária, que o próprio interior do edifício. Em síntese, você tem um compromisso com o morador e com o transeunte também." Orgulhoso, evoca o exemplo de um cidadão que, ao comentar um de seus projetos, reagiu: "Veja, parece camisa do Flamengo!"

O racional e o prazer

Antigo seminarista do Colégio dos Irmãos Maristas, ex-aluno do ITA, Fernando Peixoto se formou arquiteto em 1969. A princípio, dividiu o espaço de seu escritório-ateliê com um amigo, mas – a certa altura – sentiu que precisava mudar a rota profissional. Para ele, enfim, a linguagem do concreto havia se esgotado e pretendia caminhar em direção a uma linguagem na linha de produção industrial, racionalizando custos sem abrir mão da qualidade construtiva.

"Chegou uma hora – confessa – que necessitava mudar. Ou me tornava amigo do rei, me engajando nos projetos públicos, ou emigrava para outro lugar, onde pudesse desenvolver um projeto de vanguarda. Decidi por outra saída: ficar aqui mesmo, onde ainda existe uma grande tolerância profissional e desenvolver minha própria expressão arquitetônica," que considera mais um sistema que uma linguagem ou estilo.

Assim, se diz dividido. De um lado, o racional, de outro, o espontâneo, a fantasia e o prazer de criar. E, instigante, argumenta: "ainda existe no Brasil uma confusão entre vanguarda e modernidade. Vanguarda, no meu entender, é fronteira e modernidade, acesso. Se a vanguarda não se tornar modernidade não passa de um preciosismo. Uma Ferrari GT é vanguarda, um Fiat, modernidade. Um Rolex é vanguarda, enquanto o Seiko, modernidade. O que desejava, portanto, era fazer uma arquitetura moderna, de acesso, daí minha atenção voltada para o cotidiano. O indivíduo que foi obrigado a se mudar para um conjunto popular não significa que culturalmente se tornou mais pobre, pois continua com o mesmo desejo de modernidade. Assim, procuro fazer projetos classe A ou para a classe média com a mesma paixão e qualidade. O profissional de Arquitetura deve trabalhar a sensibilidade para responder, cada vez mais, a uma faixa maior. Meu grande desafio seria projetar um conjunto habitacional com competência, aí sim poderia me orgulhar do que faço."

Contrabalanceando o útil e o agradável, o arquiteto não abre mão de qualquer procedimento racional. "Racionalizar desde uma quebra de bloco significa todo um processo cultural, começa desde a fabricação até a hora em que se assenta, é um processo de educação que precisamos conquistar. Racionalizar, por outro lado, o projeto. Não conheço nenhuma construtora no Brasil que aproprie, por exemplo, as fachadas, quebrando as arestas. O nosso método de avaliação contínua precário. Mesmo as construtoras de vanguarda, que tentam racionalizar o processo construtivo, não conseguiram isso. Ainda, no Brasil, se coloca toda uma parafernália tecnológica para se fabricar um Rolls-Royce, persistindo a mentalidade de que é preciso entortar um prego pra ficar diferente. O meu lado, então, é o da modernidade no sentido de acesso, fazendo, por exemplo, sanitários conjugados para diminuir as prumadas. Afinal, o conforto em Arquitetura está relacionado ao custo, não existe Arquitetura abstrata. Ou seja, a cama precisa ser bonita e confortável também."

Define-se como um "arquiteto na contramão, à margem." E, incisivo, conclui: "o que predomina ainda é a prepotência, como expressão do poder. A elite consagra valores. O diferencial, no entanto, não pode ser por dinheiro, mas por criatividade e qualidade. Eu me orgulho, portanto, que minha notoriedade venha de projetos absolutamente corriqueiros e não excepcionais. Olodum, João Gilberto e outros também já foram periféricos, como eu."

 
 
A obra arquitetônica de Fernando Peixoto pontua a paisagem de Salvador, Bahia. Os prédios, de vários andares, são blocos geométricos, compostos de cores vivas. Têm a simplicidade e a leveza dos jogos de armar. Destacam-se imponentes, integram-se à arquitetura existente na cidade. Têm a imagem de gigantes objetos de arte – podem ser considerados esculturas coloridas, muito próximas das idéias preconizadas pelo movimento holandês de Stijl, "O estilo", de 1917, ou neoplasticismo, cuja visão estética, objetiva, antevia uma nova concepção das artes plásticas que integrava a tecnologia industrial contemporânea ao cotidiano.
Neste fim de século, parece acontecer um "revival" das teses que esboçaram novas expressões artísticas. Na avenida paulista, São Paulo, por exemplo, há inúmeros prédios com linhas oblíquas e elípticas, evocadoras (segundo o manifesto da arquitetura da arquitetura futurista de Antonio Sant’Elia, 1914) de um dinamismo mais vibrante do que o das linhas perpendiculares e horizontais. Para os futuristas, essas linhas eram estáticas, graves, deprimentes e dissociadas da nova sensibilidade deste século. Todavia, o neoplasticismo teve também a intenção de contestar a expressão individualista da arquitetura, composta com apliques e berloques saudosistas, inspirados em elementos decorativos desvinculados da visão do mundo contemporâneo.
A linhagem estética da obra arquitetônica de Fernando Peixoto tem forte influência da tendência neoplástica que partiu das linhas verticais e horizontais, no sentido de criar uma construção coletiva, de acordo com o Quinto manifesto De Stijl (1923). Relendo esse manifesto tem-se a impressão de que o tempo parou. Fernando Peixoto exemplifica na sua arquitetura depurada os conceitos estéticos propostos pelos holandeses, mas que não tiveram a sorte de serem realizados integralmente.
O documento não só atribui à arquitetura a expressão maior da síntese artística, como propõe a cor arquitetural como elemento de uma nova concepção espacial, que além do mais rompe com a dualidade do interior e do exterior (as cores, em geral, são colocadas dentro das casas).

O manifesto assinado, entre outros por Theo Van Doesturg, é taxativo: "Damos à cor seu verdadeiro lugar na arquitetura e declaramos que a pintura separada da construção arquitetural não tem nenhuma razão de ser." Quem melhor que Van Doesturg para conceituar a eloqüente arquitetura de Fernando Peixoto?

 
 
O uso singular da cor e a composição lúdica tornam o trabalho deste arquiteto em algo único, pessoal, e ao mesmo tempo marcadamente brasileiro. É importante notar que Peixoto nasceu e tem a maioria de suas obras em Salvador, a primeira capital brasileira, com uma forte influência africana, e uma cidade com uma cultura singular e cheia de cor.
Neste caso é uma agradável surpresa ver uma arquitetura tão marcante e independente das caixas de vidro e outros modismos arquitetônicos.

Outro importante fator para uma apreciação do trabalho de Peixoto é manter em mente o objeto da maioria de seus projetos: eles não são prédios governamentais ou sedes de grandes empresas, mas sim prédios de escritórios e apartamentos corriqueiros, onde o custo de construção é fator decisivo.

Estes dois aspectos, adequação cultural e racionalidade de custos, são os dois suportes principais do seu trabalho.
A maioria dos seus desenhos são "caixotes", onde a simplicidade da estrutura e perímetros reduzidos são uma constante. Ao mesmo tempo o conceito gráfico elimina janelas como um elemento de composição estética, sendo seu tamanho e posição conseqüência da necessidade funcional.

Nesse aspecto, podemos considerar sua arquitetura muito próxima ao desenho industrial, onde a imagem e o resultado visual são obtidos sem manipulação desnecessária dos elementos construtivos.

Ao mesmo tempo, o impacto visual do seu trabalho tem muito a ver com a distância e velocidade da percepção, tornando-o mais notável que muitos outros em uma cidade moderna.

A despeito de uma composição rica, esses trabalhos não se prendem a excesso de detalhes, ineficientes se visto à distância ou através de janelas de um automóvel em movimento.

Sua ênfase na cor e contraste, ao invés do volume, torna seu trabalho de impacto universal, uma vez que a cor é mais emocionante que o volume, mas dependente de formação cultural do observador.

"Ao dispor de tecnologia começamos a brincar com a estrutura sem razões funcionais, ou mesmo adotar caros vidros especiais para redução de calor antes de janelas menores. A tecnologia sobrepõe-se a racionalidade básica e um orçamento folgado torna-se pré condição para originalidade do projeto. Meu trabalho com edifícios de apartamentos e escritórios comuns busca o máximo de área com um mínimo de perímetro e irregularidades."

"Para enriquecer sistematicamente o cenário de nossas cidades e modificar sua grande massa cinza de mediocridade, devemos não entronizar tanto os "Rolls Royce" e "Rolex de ouro" como símbolos de nossa era pois, carruagens luxuosas e anpulhetas preciosas assim como exemplo especiais de esplendor arquitetônico não são novidades."

"A prática arquitetônica deve sim alcançar carros Fiat e relógios Seiko, porque significam acesso em grande escala à qualidade e beleza, acesso este que, independente do estilo ou moda, é a verdadeira essência da modernidade."

Mais uma vez, o trabalho de Peixoto é fora do comum porque, em vez de usar a cor para enfatizar volume como um recurso secundário, a cor é transformada no elemento principal sugerindo, e algumas vezes substituindo visualmente o volume em uma fachada plana.

Ao mesmo tempo as composições arquitetônicas resultantes escondem a malha estrutural de suporte e a simetria das unidades individuais que compõem o prédio, obtendo assim um senso de unidade indivisível em lugar de um agrupamento de elementos repetitivos e óbvios.

Além destas considerações bastante claras, quando se vê um edifício de sua autoria, o sentido e intenção do trabalho de Peixoto é bem definido nas suas próprias palavras:
"A arquitetura moderna tem falhado em promover a qualidade do design fora do domínio histórico restrito de uma elite privilegiada.

Quando outros campos no design estão combinando custos eficientes com riqueza estética, arquitetos ainda consideram custos limitados uma restrição a resultados criativos."

 
 
Dentro da complexidade dos elementos imanentes a uma  obra arquitetônica, o aspecto enfocado por mim no presente trabalho é o de apresentar uma leitura específica de aspectos exteriores de edificações projetadas por Fernando Peixoto, leitura esta comprometida prioritariamente com um produto final – as ilustrações de um livro – utilizando com liberdade os recursos de computação, objetivando a expressividade e a unidade formal.

A presença de Fernando Peixoto nas diversas etapas do processo do tratamento digital das imagens legitimou ainda mais a minha tarefa, estabelecendo uma saudável cumplicidade com o arquiteto e a equipe do seu escritório, fortalecendo a imprescindível ligação entre o projeto arquitetônico e o projeto gráfico. Devo destacar que grande parte das imagens finalizadas foi trabalhada a partir de fotografias convencionais pertencentes ao acervo do escritório do arquiteto, cujo autores vão relacionados neste livro.

O conjunto das imagens finalizadas constitui uma visão muito particular da obra de um arquiteto. Sinto0me como o curador desse trabalho além de ser o responsável pela execução da maioria das interferências efetuadas nas imagens, uma visão, volto a repetir, muito particular e subjetiva, comprometida com as implicações inerentes à transposição da linguagem – de uma obra arquitetônica para um livro de imagens – expressa através do repertório tecnológico dos processos de computação gráfica.

Sílvio Robatto

 
 
Permissividade e Transgressão Lúdica da Imagem Urbana"Não há nada mais subversivo que a imagem, pois ela é o verdadeiro elemento perturbador da racionalidade dos sentidos"

Moniz Sodré

Há quase um década escrevi o texto "Axé Architecture – A pós-modernidade na Roma Negra" 1 e nele contextualizei, sem todavia enfatizar devidamente, o nome do autor, os aspectos mais perceptíveis da arquitetura de Fernando Peixoto referenciados apenas numa breve nota. Mesmo assim, fui alvo de impropérios por   alguns colegas da academia que reprovaram minha atitude e questionavam, admirados, a razão pela qual havia feito aquela referência. Na época, o debate sobre a condição Pós-moderna - assim denominada por muitos autores em função da emergência de um conjunto de novos pressupostos culturais  em evidência nos países hegemônicos desde o início da década de 60 - ocupou o ideário cultural e, entre nós, principalmente na academia, esse debate era bastante acirrado, embora já  mostrasse nos países que lhe deram origem sinais de plena exaustão.

Durante Congresso Brasileiro de Arquitetos realizado em Belo Horizonte em 1985, tomou-se consciência, com bastante retardo do debate Moderno x Pós-moderno, e isso, particularmente nas academias onde a nova formação discursiva  significava para alguns, como o autor deste texto, o advento de um novo paradigma e para outros, uma continuidade do moderno ou, até mesmo,   uma simples impostura, um "pastiche". Justamente por isso, o debate tornou-se um fator de sobrevivência cultural. Vale ressaltar que nesse polêmico contexto, a palavra-chave deconstrução, visava então questionar o mito da arquitetura moderna, visando retirar dela  a hegemonia, a importância  e as limitações   que   os enunciados dessa arquitetura então promoviam na formação do arquiteto. Deconstruir não deveria  significar destruir ou desmontar, mas caracterizar a perda hegemônica dos enunciados e narrativas da modernidade, e isto, frente a   nova sensibilidade que estava emergindo resultante do amplo processo  de transformações do mundo globalizado, do advento do consumismo generalizado, da sociedade do espetáculo, dos espaços de fluxos que expressavam os avanços tecnológicos em confronto  com os espaços de lugares.

Justamente, no início dos anos 80, em plena ascensão das novas tendências deconstrutivistas tendo como alvo a arquitetura moderna, sob a égide do pós-modernismo em arquitetura [denominação esta  que abrigava sob o mesmo teto um conjunto bastante heterogêneo de tendências e  de expressões estéticas, fossem elas conservadoras ou novadoras], ocorreu a singular expressão da arquitetura de Fernando Peixoto. Acontecimento esse que se vincula mais diretamente aos fenômenos da percepção, isto é, da imagem urbana. Sob esse ângulo, a produção do arquiteto pode ser considerada bastante transgressiva  quando  analisada em relação aos padrões visuais transmitidos pelas edificações da arquitetura  do movimento moderno.

Frente a essa presença no panorama da produção de arquitetura em nossa cidade, algumas indagações podem ser formuladas e, até mesmo, levantadas algumas hipóteses visando detectar quais os agenciamentos que motivaram essa opção estética do arquiteto em questão. Quais estímulos   favoreceram esse acontecimento de indelével presença nas avenidas de vale da Cidade do Salvador? Que repercussão e alcance teve essa produção quando comparada à simultânea produção de exemplares do  pós-modernismo   de diferentes expressões e estilos de inspiração retrô (neo-clássico, eclético, colonial, rústico, mediterrâneo, decó, entre outras), e até mesmo,  a produção tida como  "high tech"? Tudo, então, sob a acirrada crítica promovida pela academia que não cansava  de propagar em alto e bom som em relação à produção de arquitetura de Fernando Peixoto: "isto não é arquitetura", expressão que repercutia em salas de aulas. Enquanto isso, em relação às demais tendências eram as mesmas consideradas arquiteturas decadentes, salvo aquelas produzidas na cidade e que se aproximavam da expressão "regionalista" do arquiteto Assis Reis ou daquela "high tech" produzidas pelo arquiteto João Filgueiras, conhecido desde então por Lelé.

Tanto o senso comum quanto os textos literários  fazem referências ao contexto cultural baiano, especificamente à Cidade do Salvador e, consensualmente,  aludem ao que, convencionalmente, vem sendo  chamado de “permissividade baiana”. Neste contexto, parafraseando o antropólogo Roberto Da Matta, talvez pudéssemos falar em ”dilema baiano”, no sentido que esse autor trata as práticas sociais (a arquitetura é uma delas) e em que tais práticas possuem conteúdos simbólicos e deixam de ter uma razão puramente funcional em relação aos valores dominantes. Antes pelo contrário, muitas dessas práticas possuem o sentido de inversão, de paradoxo, quebra de padrões, a exemplo do que ocorre por breve período   durante o carnaval onde ocorre a permissividade e a  transgressão expressando a inversão de valores estabelecidos.  Segundo o mesmo autor, numa sociedade marcada pela opressão, a carnavalização da vida e de suas práticas tem um sentido altamente positivo, e isso, em decorrências dos anseios de liberação em resposta às relações de dominação que permeiam, de um modo geral, o quotidiano da grande maioria da população.

Essas noções, tanto a de permissividade quanto a de transgressão, tratando-se de uma cidade como Salvador, elas podem ser relacionadas às inúmeras manifestações que emanam  da cultura-afro, isto é dos afrodescendentes [em torno de 80% da população da Cidade], as quais fazem contraponto a cultura ocidental. Bem se conhece quanto esta cultura tem descriminado, ao longo da historia, as manifestações artísticas e religiosas  de origem africana.  Descriminação essa, a exemplo das cores, tidas como primitivas, excessivamente fortes e utilizadas em combinações paradoxais ou relacionadas simbolicamente  com o culto dos orixás. Também, essa descriminação passa pelos desenhos e arranjos decorativos de cunho geométrico contendo conteúdos figurativos simbólicos, os quais se entrelaçam em composições emblemáticas de  difícil leitura para os não iniciados. Os cheiros, considerados demasiadamente fortes, densos e que não se  identificam com discerníveis odores e  suaves  fragrâncias da cultura branca.  Também, quanto às iguarias, as quais, embora consideradas indigestas, são reconhecidas por suas qualidades afrodisíacas. Enfim, os ritmos, tidos como primários e repetitivos e que, contudo mexem com  a rigidez do corpo, promovendo seu molejo, evidenciando agilidade e maciez de gestos, produzindo diferenças em suas manifestações [carnaval, afoxés, trios, candomblé, etc.]. Essa incontrolável energia da cultura negra, convivendo, hoje, com a potente sonorização "high-tech" dos trios elétricos, [arquiteturas móveis, nômades], vem afirmando, cada vez mais, a instrumentalidade de percussão, elemento básico da musicalidade afro.  Por tudo isso, considerando   esses níveis de descriminação  é que Caetano Veloso, contrariando o gosto hegemônico da elite soteropolitana, chamou esse conjunto de manifestações sensoriais da negritude, com absoluta justiça, de "Beleza Pura".

Na historiografia da arquitetura produzida no Brasil, quase nada se fala de edificações relacionadas com a cultura negra, salvo das senzalas, porões da escravidão  e dos quilombos, verdadeiras "máquinas de guerra" sob a mira de "aparelhos de captura"  do poder dominante. Apenas recentemente, espaços significativos da cultura-afro em nosso país ( os terreiros e quilombos]  passaram a merecer a devida atenção no sentido de preservação da memória desses espaços, e isso, em decorrência dos movimentos sociais promovidos pelos afrodescendentes.

Por outro viés, vale salientar que simultaneamente a presença local desses estratos culturais específico herdados da cultura-afro, estava ocorrendo, em nível global no mundo, a contaminação da arquitetura pelo consumismo generalizado do "marketing", registrado por Robert Venturi  desde o  início dos anos 70 com seu livro" Learning from Las Vegas" 2. Nele, Venturi, releva o papel prioritário que estava assumindo a presença da propaganda, do anuncio, da publicidade  sobreposta à edificação. Acontecimento esse de enorme repercussão na semiótica urbana,  equivalente a  um manifesto subversivo , uma transgressão aos pressupostos visuais e comunicativos da linguagem promovida pelo movimento da arquitetura moderna. Tratava-se do advento de  uma permissividade até então inconcebível, fato esse que em termos mais explícitos enunciava o seguinte: a partir de agora, o anuncio, a publicidade, a comunicação visual, a imagem, a "pele" das edificações  passam a ser elementos entre os mais importantes da arquitetura. Subordinando, assim, a  arquitetura como pura exigência funcional e explícita de um programa, nos moldes assumidos pelo modernismo, subvertendo-a,   adequando-a a conveniência e funcionamento do  mercado: a arquitetura (entenda-se, suas fachadas) como mero suporte promocional. Uma imagem à venda numa sociedade sob a égide do capital. Todavia, tudo faz crer que o arquiteto Peixoto, sem a devida crítica e ironia que substanciava o discurso  de Venturi, procurou atender de forma bastante singular  ao apelo e às exigências  especulativas do mercado imobiliário soteropolitano.

Trata-se de apelo à potencialidade  de sedução das cores e formas, no sentido  do design de mercadoria [e a arquitetura deve ser considerada, também, uma mercadoria no processo da especulação imobiliária].  Tal  fato, assume diferentes conotações as quais se aproximam do tipo de edificação que Baudrillard denominou pós–modernismo comercial. Arquiteturas essas voltada prioritariamente para o valor de localização do imóvel, isto é, de suas  inserções no tecido urbano, contando com o poder da imagem e  podendo as mesmas pertencerem tanto a um repertório que recicla estilos (neo-clássico, colonial, decó, rústico, etc., atendendo aos  desejos de uma clientela conservadora, saudosista), quanto à uma imprevisível composição de formas geométricas e cores no atendimento aos anseios daqueles que preferem, conceitualmente, a Diferença.

 De regra, o que se constata na produção da arquitetura é a repetição sem diferença, ou então, a diferença sem conceito, pois a diferença pressupõe uma mudança de natureza, um acontecimento, uma  efetiva criação. Um invólucro, em arquitetura pode ser considerado uma diferença, todavia, trata-se de  um jogo de linguagem de superfície, uma diferença sem conceito. E isso, com mais razão, considerando que a arquitetura constitui uma "totalidade segmentaria" formada de um conjunto de elementos heterogêneos que coexistem, se conectam, se sobrepõem, se contaminam, mantêm entre eles temporalidades diferentes, pressupondo "máquinas desejantes", entre outros atributos. Elementos que, todavia, não se encaixam como o Todo e as partes  no entendimento da Totalidade clássica. Quando essa totalidade segmentaria não muda de natureza, conclui-se que pode existir diferença, o que de fato há na arquitetura em questão, todavia, não podemos afirmar que a mesma, conceitualmente ele seja portadora de mudança, no sentido mais amplo do entendimento da arquitetura como acontecimento: mudança  efetiva de natureza 3.

Esse "pós-modernismo" comercial em arquitetura de destinação prevalentemente de interesse privado, adotando tipologias, sistemas construtivos, instalações e equipamentos convencionais, tem priorizado os valores epidérmicos, a exemplo de embalagens, à guisa de gigantescos "out-door", e isso, em parceria com os setores produtivos da indústria de materiais de revestimentos  destinados às  edificações. No mais das vezes, nessas composições de superfícies que geram imagens,  elas se  encontram desvinculadas dos elementos mais constitutivos da própria arquitetura. Essa desvinculação da expressão da fachada de uma edificação  de seus elementos constituintes ( percepção da estrutura, demarcação  de pavimentos, fenestração,  visualização da hierarquia  dos espaços servidos e daqueles de serviço, etc.), bem como, um conjunto  de parciais ambiguidades tem caracterizado muitos exemplares da história da arquitetura. Entretanto, essa desvinculação  quase total, encontrada em muitos exemplos da produção do arquiteto, não deve significar apenas uma questão  de desvinculação ou de vinculação. Ela não se esgota nessa colocação dual, tão criticada em decorrência dos supergraphics adotados  em suas fachadas e considerados inconsequentes. Provavelmente, essa atitude entendida como transgressão lúdica, encontra num viés antropológico um entendimento mais claro, à exemplo do que consideramos anteriormente.

  Vale lembrar, que de certa forma, o ensino e a prática de arquitetura constitui uma “máquina abstrata binária”, contando com a forma de pensar arborescente, isto é, um conjunto de enunciados (as diversas disciplinas) codificados e sobrecodificados, efetuados pelo Aparelho de Estado (leis e delegações destinadas às instituições - MEC/ Universidades, CONFEA/ CREAS que acabam aplicando tais máquinas) e que tem na metáfora árvore-estrutura o modelo de pensar. Independente do nível de criatividade que se pressupõe ou se atinge nas práticas arquitetônicas, existe um senso comum generalizado, particularmente, entre os  docente os quais não  admitem conviver com paradoxos, contrariando lógicas estabelecidas. Há, evidentemente exceções. Para a grande maioria dos professores e arquitetos, na época,  engajados nas práticas de arquitetura,  o conjunto arquitetônico do autor, denominado Cidadela, foi considerado "uma brincadeira de mau gosto, uma negação da verdadeira arquitetura". Entretanto, tal conjunto arquitetônico surpreendeu a cidade, o cidadão comum, os pedestres, os motoristas. Para a academia e o mercado imobiliário dominante e conservador tal empreendimento foi considerado um despropósito, um absurdo.  Para o mercado emergente e de menor tradição imobiliária, provavelmente um achado. Para o senso comum que constitui a maioria da população, a imagem criada por Fernando Peixoto com suas arquiteturas, um estímulo visual na paisagem urbana de Salvador, uma alegria colorida.

Não há como tanto questionar essa expressão de arquitetura como pós-modernismo comercial ou cooptado, segundo a expressão de Baudrillard acima referida, e isso,  em decorrência da carência cada vez maior de edificações públicas,  fazendo com que a arquitetura de natureza privada, possua, inevitavelmente, seja ela qual for, uma forte conotação comercial,  adequada a circunstâncias locais e níveis específicos de desempenho do capital especulativo, no atendimentos à diferenciadas clientelas. Numa cidade terceiro-mundista como Salvador, definida por sociólogos como uma "grande favela com bolsões de riqueza", melhor seria, talvez, falar nesse processo  de contestação da produção da arquitetura de Fernando Peixoto, de emergência de uma estética pop de matriz africana,  uma espécie de transgressão lúdica, no sentido positivo de  carnavalização da vida,   como reação à ordem estabelecida,colocando  “o mundo de cabeça para baixo”,  evocando, assim,   a liberação das amarras impostas pelo conformismo canônico do movimento moderno de arquitetura. Portanto, não é mais possível num mundo globalizado, comparar contextos culturais tão diferenciados sob a égide da homogeneização de expressões arquitetônicas, ditadas por países hegemônicos que exportam o que é conveniente ou não fazer em arquitetura.

Vale salientar como essa arquitetura proliferou em muitas localidades do país, e isso, justamente pela sua inquestionável singularidade da imagem e do impacto  que a mesma efetivamente promoveu. Não sem razão, a obra do arquiteto foi escolhida pelo Itamaraty para representar o Brasil na Bienal Internacional   de Arquitetura de Veneza. Hoje, passada duas décadas, apesar da efemeridade de expressões artísticas da contemporaneidade, a produção do jovem arquiteto de então, consegue, ainda hoje, já maduro, permanecer fiel aos seus propósitos iniciais, reciclando-os criativamente, a exemplo de sua mais  recente obra  que o autor deste texto apelidou de "totem" da avenida Juracy Magalhães Jr. Hoje, se suas obras não possuem mais o mesmo e forte impacto que inicialmente provocaram na paisagem urbana, contudo,  elas criaram no contexto cultural baiano, um traço, no mínimo, inconfundível.

Independente da atitude contra  os parâmetros estéticos ditados pelo ensino acadêmico, no sentido acima referido do  confronto do pós-modernismo, a nossa hipótese principal prende-se, não apenas ao condicionamento geral do novo estágio cultural do mundo globalizado, mas ela possui outra e importante conotação.   Acredito que o arquiteto procurou, consciente ou inconscientemente,  captar e  entender na superfícies de suas arquiteturas,  aquilo que chamamos anteriormente de "dilema baiano", o qual tem na permissividade e na transgressão lúdica, a força, a energia, o axé,  de sua presença. Elementos  esses tão enraizados nas práticas  da maioria da população desta Cidade do Salvador. Cidade que abriga uma população majoritária, historicamente tão subjugada, a qual tem procurado com suas ilusões, paixões e alegrias, colorir, carnavalizar o quotidiano, e isso na positividade de suas intenções, sejam elas conscientes ou não, procurando compensar as agruras ditadas pela ordem estabelecida, contaminando através de suas contagiantes formas de expressão estética a vida cultural da cidade.

Não há como entender a produção do arquiteto Fernando Peixoto  desvinculada  da nova condição cultural contemporânea ("pós-moderna")  que então se propagava e se propaga pelo mundo a fora, no âmbito do processo de globalização. Entretanto, tal pressuposto não é suficiente para caracterizar a sua produção. A singularidade dessa produção  deve  ser encontrada, também, nas energias que emanam da suposição do “dilema baiano”. Somente através dele podemos entender sua sedução para a maioria da população desta cidade, bem como, compreender as críticas sem reserva da elite cultural e acadêmica à essa produção de arquitetura.

Vale registrar que na historiografia da arquitetura baiana do final do século 20, a produção de Fernando Peixoto, descumprindo os preceitos fundamentais ditados pelo movimento da arquitetura moderna, em termos de composições de suas edificações, consciente ou inconscientemente, faz aflorar, afirmar e transmitir, através  de uma geometria colorida que as reveste, à guisa de uma pele. Trata-se de um sentimento, uma  percepção, próxima ou equivalente  à permissividade e a transgressão lúdica que emana da singular cultura local, uma provável contaminação da expressão  que encontramos nas manifestações mais populares desta Cidade do Salvador, a qual por sua potencialidade, energia e reconhecida singularidade, vem merecendo ser chamada de “Roma negra”.

Será essa hipótese válida? 
Ao leitor a palavra.

Pasqualino Romano Magnavita1 Texto de maio de 1994, publicado na revista Arquitetura e Urbanismo-AU nº 60, p.82-85, jun/jul/1995. Inicialmente o texto havia sido enviado a revista Projeto qual colocou algumas condições para sua publicação e  às quais  o autor não aceitou.

2 Venturi, R – Brown, D.Scott – Izenour, S.—Leaning from Las Vegas, Massachusetts,ed. M.I.T, 1972.

3 "Diferença e Repetição" obra filosófica de Gilles Deleuze, São Paulo, ed. Graal, 1988.

 
 
A Cidade do Salvador, a partir dos anos 30 do século XX, acompanhou os movimentos que traduziram a "modernidade", "futurismo" ou "internacionalismo", interpretando de forma tímida suas linguagens, partidos e soluções sem, contudo, patentear a sua produção regional.

O estilo art déco manifestou-se, predominantemente, em edifícios públicos; a Bauhaus esteve presente no Instituto do Cacau, associada ao nativismo marajoara; o proto-modernismo cubista personificou residências da burguesia local; o racionalismo de Le Corbusier ganhou status oficial com o Hotel da Bahia, marcando presença na verticalização da cidade; o brutalismo definiu o Centro Administrativo da Bahia, descartando qualquer revestimento que mascarasse a arquitetura; a caixa de vidro conquistou o mercado financeiro e a pós-modernidade deconstrutivista ensaiou passos sem sucesso nesta cidade que adotou a linguagem barroca como sua maior expressão e iniciou o século XX com uma arquitetura alegórica e eclética.

Fernando Peixoto graduou-se pela FAUFBA nesse contexto regional e histórico. Homem culto, sensível, polêmico e ousado buscou desenvolver a sua arquitetura com personalidade, adequando-se à sua contemporaneidade e explorando uma tendência plasticista que permeia entre o cubismo, a op-art e o vanguardismo estético de Mondrian, no campo da pintura, enquanto concepção de planos e linhas que harmonizam cores vibrantes, contrastando-as. Sua arquitetura explora volumes, cores, texturas, planos, materiais e efeitos de luz e sombra. O telhado desaparece para que seus volumes sobressaiam em variáveis níveis, definindo os espaços internos na composição externa.

Na arquitetura horizontal, Fernando Peixoto brinca com lajes, transparências em vidro blindex, cores, pedras, tijolos, cerâmicas, madeiras, pergolados. Integra jardins; no entorno, suspensos ou contidos, valorizando o paisagismo tropical e projeta planos no interior com escadas bem lançadas, mezaninos, espaços vazados e interligados, numa concepção purista, luminosa, harmoniosa. Na arquitetura vertical, brinca com os brises, combogós, revestimentos cerâmicos, cores fortes e contrastantes, ousadas, irreverentes mas, acima de tudo, belas, equilibradas, na dosagem exata do criador talentoso.
Sua obra marca presença, define linguagem, incita seguidores que se perdem na tentativa de copiá-lo sem, jamais, atingir o seu nível de criação e composição. Seu traço confunde o expectador, direcionando-o por diagonais, linhas que se cruzam, cores que contrastam e se somam, escondendo vãos, disfarçando volumes, criando tecidos que mesclam cores, texturas e brilhos. Sua arquitetura transforma a paisagem urbana e assume a linguagem do outdoor, marcando presença, definindo conceitos, fazendo história.

Fernando Peixoto cria, inova, ousa, realiza, incomoda, transforma, marca presença, polemiza. Seu talento é nato, sua inteligência é vibrante, sua cultura é universal, sua prosa é agradável, seu traço é marcante, sua obra é personalíssima.

Francisco Senna